17 de junho de 2014

vivo 50 anos, mas o meu pensamento são milhares. posso viver mais do que o pensamento, mas são contas delicadas, que pelo tempo que demoram, mais vale decidir sem lhes dar a primeira atenção.

7 de junho de 2014

Há uma história que lanço à ameaça da mentira, num jogo de azar aposto o que me compõe, o meu corpo e voz. Estou a ser lançado neste momento, de cabeça. Tudo o que me sustenta o movimento está num patamar final da palavra ou qualquer gesto que chegue ao outro, o meu salto é puxado pela gravidade do outro. Se esta viagem não ocorre, uma ideia, cai sem pressa nem temperatura nem forma na solidão sem oxigénio do espaço sem limites, ouvindo silvos de idiomas que já não se entendem.

5 de abril de 2014

A caducidade da obra

Quis ouvir o que diziam não a mim mas ao meu lado, no país ao meu lado, porque lá estavam cores que gostava e cheiros que me atraiam o centro, com força. Fui. Muitas pessoas não compreenderam a minha gestualidade mas eu, confiante (tinha trazido um cavalo escuro) avancei exercitando mãos e músculos da face. Expressei alegria, desconcerto, fascínio, declínio, certeza e fé. Acho que aprendi e que outros aprenderam comigo. Todas estas lições não têm resultados óbvios, como uma planta a aparecer dias depois de se semear sua espécie, mas para isso é que servem as hortas, e não as páginas e as tintas, as palavras e os olhares fixos a perder a noção de quando acaba o negro no meio do olho. O negro é diferente de um olho para o outro, a viagem que se faz entre a esquerda e a direita é abismal, não devemos estar demasiado focados, senão, quando damos um passo caímos. Eu tento agir com precisão, mas na minha mente estão eternos ecos de tudo o que já vivi a queimar ruidosamente um fogo imaginativo, chamas que não prevejo seguir a direcção cimeira do céu, um calor do futuro todo possível, a deixar-me ver mesmo que eu não queira, tudo ao contrário, palavras a nada significar e ter de aprender outra vez a escrever, mas sem professor, por gestos primitivos, através de gerações. imagina a estranheza dos seres que te estão a entrar aos milhares pelas narinas a dentro neste momento.

1 de abril de 2013

Tentei não dizer, mas já tinha começado antes de o fazer.

29 de novembro de 2012

O underground vem sempre ao de cima

7 de março de 2012

Mar

Conquistar é um velha ilusão

Pois ninguém muda de lugar o chão,




Enquanto os homens vêm e vão.

1 de março de 2012

Esforço

O homem caiu. A grade cedeu e o homem caiu, no cimento.
Ninguém viu, e foi amplamente horrível.





A gente não cai como uma folha, a gente é racional, vai directa ao assunto.
Cai e pronto, nem dá tempo para ver as horas, e tempo para o apontar não falta.

6 de agosto de 2011

Delitos

Incendiei as altas portas da igreja, fugi.






À distância observei, e satisfeito pensei que Deus queria sair.

25 de julho de 2011

Tudo por causa do ócio

A morta vontade de carregar sapiência e usá-la ferozmente enquanto na multidão.
E desesperos da memória antiga, lutando contra o ser obsoleta, e quando a extinção?








Quando se instala mudança não convidada, prossegue-se o uso velhos valores para mascarar falta de pessoa, para mascarar ausência de pensamento.

3 de julho de 2011

Quartos

Imensos choros e gritos de prazer ecoaram dentro daquelas sete paredes surdas.
Sala disforme.




Aqueles cuja única ambição é não querer morrer.

23 de março de 2011

Figura

Após um breve inalar, a respiração prosseguiu acompanhada e esquecida, pelas outras vibrações. Uma mulher fazia-se soar. Uma mulher fazia as cordas do seu violoncelo deixarem de existir numa forma fixa e tensa para uma forma não visível, uma forma ela ignorada, talvez por isso mesmo. Mas ela conhecia todos os pontos, sabia chegar ao estado em que o tempo entre um movimento e o outro é apenas medido pela sua respiração (outrora esquecida). Qualquer outro dado distante fosse provavelmente lembrado por minhas fobias, mas não por ela, não, tudo era vácuo, um vácuo sonoro limitado ao seu espaço e este raciocínio involuntário suspenso por fios exercia a mesma gravidade do seu instrumento, pronto a cair não no silêncio, mas em qualquer outro som, intraduzível.







A frieza, a frieza das mãos desta mulher em contacto com aço. A vontade predominante era esvaziar o espaço dos pulmões, da sala, do mundo, todo o ar em excesso à sua acção, todo o som e pensamento desnecessário.







Há um momento de suspensão posterior, originado pelo desejo do som permanecer indefinidamente.

Tomada de consciência, tédio.

2 de março de 2011

Repouso

Uma homenagem à difícil ideia de nos transformarmos no mundo e o mundo transformar-se em nós, e noutras pessoas.






































Pelo menos, tentar ser humano, até morrer.

28 de fevereiro de 2011

Impaciência

Breves arrepios atravessavam os tendões presos do músico, depois do espectáculo. Como era possível ele tocar tão bem, sem conhecer mais nada de música senão o modo como ela opera e é tocada? Não conhecia o autor, nem quando tinha vivido, mas as suas mãos demoníacas, as suas suaves e ágeis mãos.





No entanto há sempre a impressão que o músico é o compositor, do que toca e de tudo o resto. Se tocar bem.







Sempre necessário, fazer teatro, esquecer as coisas e criar outras. de maneira a ser o mais próximo de qualquer coisa.

13 de fevereiro de 2011

Anaximandro

É noite, caminho sozinho entre a chuva ligeira e a neblina que o chão liberta, e este é o acto heróico do dia.





Era noite, caminhava sozinho entre a chuva ligeira e a neblina que o chão libertava, e esse foi o acto heróico do dia. Hoje já as ruas pareciam querer-me avisar que não devia ir por ali, mas fui de qualquer maneira, pois nunca uma rua falou comigo, física ou metafisicamente.

29 de janeiro de 2011

Mulher

Tem um pensamento muito coeso pois pensa por escrito, lê imediatamente o que imagina, o que concebe nunca é abstracto, no entanto o seu ponto fraco é sem dúvida a fala, quando confrontada com o acto, a sua reacção natural é a fuga, a sua fuga para um velho banco de jardim, onde possa ler-se, quer um livro quer a si mesma.





Um dia Áurea apercebeu-se que ainda não era independente do seu criador, embora fosse orfã, era uma filha de um outro tipo de acontecimento, pode-se considerá-la alguém que por vezes extingue-se, só para num outro momento renascer sorrateiramente, e tão sorrateiramente que nem ela se apercebe do acto.



Criarei Áurea, uma personagem não necessariamente feminina, visto que tentarei representá-la durante o correr das coisas, parte dela já existe, mas sem dúvida é um exercício. Mais uma teatralidade que me desorienta das correntes que sigo sem realmente estar desperto. Áurea está sozinha, está sempre em conta nos seus actos, apercebe-se sempre do ambiente e dos seus objectos, pessoas e objectos/pessoas, retém por vezes uma certa fúria que em caso de se soltar , iria perturbar, mas Áurea só evita fazer um tipo de poluição, a sonora.






Áurea sabe que é superior, mas não pensa frequentemente nisso, nem o espalha pelas massas, é até bastante incógnita no seu mundo, no entanto há quem reconheça a sua existência e quem a contemple, só nesses casos Áurea tem companhia, e delicia-se.


Áurea é pobre devido ao seu consumismo compulsivo, é dada aos simples, mas por vezes dispendiosos prazeres. E quem diz que fumar, ver teatro, ter livros, beber café e outros, não é um acto de ócio? Embora pobre materialmente, vive certamente uma vida de dandy, quando as ocasiões assim o permitem





escrito e esquecido imediatamente em meados do outono de 2010
e talvez só a própria mulher veja a etérea imagem de um ser humano, em ela própria.
como admiro os simples gestos de feminina mão.

14 de janeiro de 2011

Sol

Quase que parece que o calendário adoptado por pelo menos o mundo ocidental se tenha baseado no ciclo menstrual. Podemos todos assumir que houve tempos sem qualquer tipo de medida, mas organização, essa sempre houve.



7 de janeiro de 2011

Piedade

Com uma certa subtileza, e sobretudo gosto, encontram-se maneiras de explicar tudo.

A matemática não parece incluída aqui, mas de facto é, para mim, dotada de uma carácter nada lógico e evidente, mas tão poético e barroco.
A ornamentação, a distância percorrida para pensar numa outra linguagem. A submissão voluntária a um renascimento do comum pensamento, do observável.

Magnífico.

Saudações aos que fazem a matemática pensando assim.

Ora, uma outra forma de manipular a verdade é a minha por exemplo. Mero entretimento meus caros, mero entretenimento. Mas por vezes aprende-se, ou lê-se alto as frases, mesmo estando só, como que quem precisa de ouvir para ter a certeza daquilo que pensa ver, um reforço da verdade atingido por o uso de outro sentido, a audição. perfeitamente compreensível. E com tudo isto, realmente satisfaço-me, em explorar esta linguagem, semelhante à matemática, mas só da minha perspectiva. Sim admito que escrevo de uma forma extremamente egoísta.

Apelo ao sentido de que não o faço com dolo, a ti, aliás acredito que todas as frases podem ter um uso, prático até, arrisco dizer.



Acrescento que aprovo qualquer forma de música nacionalista, é à custa de erros de outros que faço grandes encenações teatrais. Por vezes não me consigo convencer a mim mesmo que quando encarno um Nazi, não sou de facto um nazi. Conto com a minha memória portanto, para me salvar do teatro



4 de janeiro de 2011

Construção

O arquitecto ideal iria deixar em qualquer casa um espaço dedicado a ser uma sala de guerra. Onde os ocupantes poderiam discutir furiosamente sobre as melhores estratégias de ataque, enquanto conspiravam uns contra os outros, nas suas salas de guerra individuais.



Muito bem, amanhã às 07:22 todos estaremos despertos.




2 de janeiro de 2011

dados demográficos

Qualquer um se sente um sobrevivente quando pensa que deste momento a 100 anos, todas as pessoas que vivem agora, não vão viver. (salvo raras excepções, mas a distância é tão grande que a morte tem o mesmo peso)




18 de dezembro de 2010

Escritos Aromáticos

(para demonstrar e ser vítima do que já dizia Baudelaire, e muitos muitos outros acerca das coisas que o homem faz durante a noite, alguns durante o dia. Escrito a meados de Julho)

A antiga sensação, parece nova a cada experiência, misturada com os futuros devaneios, esperanças, merecedoras de extinção, merecem o esquecimento e permanente anexo às presentes circunstâncias. É esperada a incompreensão, até mesmo do material riscador, até mesmo no presente momento, mas nada mais é aconselhável, a guerra com a inata característica de preguiça foi já eliminada na noite anterior, agora resta preservar os luminosos momentos de sage, de pensativa milonga. Os carros lentos as pessoas aparentes e as tentativas de possíveis crónicas, estas últimas sempre deturpadas por monstruosas e às vezes merecedoras de gozo, METÁFORAS. Sem crédito são as linguagens de um mero mortal, que começa noite após noite um belo ritual, limita-se a uma folha e troca as letras nas suas frases, pensa em anagramas ensinados pela maçã, pensa sempre em chegar ao amanhã vivo, e relatar a história, uma dia não há de lá chegar, mas os hieróglifos permanecerão intactos.
Pedras da Memória os chamou.


O som do carvão provavelmente frio nas páginas soltas.
Alimenta as crenças de que tudo é bela matéria e vibração.