15 de novembro de 2009

Degradado

Na escala infernal nascem.
E quando sem chão onde cair, morrem.
Nos degraus da igreja, o pecado compensa.
No frio húmido e sujo de cada rasgo petrificado, um grito de prazer ouve-se.
O deleito do escritor à porta do sanctuário manifesta-se, sons mecânicos acompanham um incessante louvar.
E assim, à chuva, o calor dos nossos corpos ganha razão.
Dando sentido aos portões entre nós e o éter, prefiro sentir as suas grades na pele a reprimir os selvagens pensamentos que se revelam entre uma visão, cega pelo fogo.
Todos os movimentos distorcem as ideias, só a dormir sei o que penso.
Dando à insónia a seu ar provocante, a resistência é desnecessária.
Agarrados ao infinito, acordam com um perpétuo orgasmo.
O auge está em tentar não morrer no tempo que lhes espera.
São amantes, são deuses.

10 comentários:

  1. e se caírem no chão, são forçados a viver feridos pela queda.

    há muito que percebi que é impossível ler sem obrigar o pensamento

    o grito de prazer, é da união dos corpos, ou simplesmente da loucura de viver, da adrenalina causada pela sobrevivência à queda

    a paixão é digna da metamorfose de homem a mártir

    mas, o louco tentaria conjugar a insónia ao sono, e criar o derradeiro desejo do ser humano, imortalidade

    (não tem sopa de letras)

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  2. mereces realmente ser conotado de génio. muito bom :)

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  3. A adrenalina de cair pode ser maior, mas é apenas isso cair. Se não tiveres chão morres, enquanto cais sabes que ou morres ou vives, e se morreres então apenas caíste. Viveste a queda e a adrenalina, mas mais nada.

    Se sobreviveres, és forçado a viver, e com o tempo a adrenalina da queda desvanece.

    Acredito que a paixão é um sacrifício porque a paixão ao contrário do amor, não oferece tempo, é uma urgência que conduz à loucura. A paixão torna-se numa obsessão até encontrar um resgate, e quando finalmente encontra o seu fim cria ruína, arrebata o melhor de ti e deixa-te sem nada.

    O início da paixão antecipa sempre o seu fim.

    A morte da carne não invalida a imortalidade do pensamento. Sempre que um pensamento faz nascer outro, permanece vivo e não deixa que o seu criador seja esquecido, aí torna-se imortal.

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  4. Espera mais um minuto
    Não vás agora..o sol está alto e confunde meus pensamentos
    Espera mais um minuto
    Quem sabe explode uma bomba ,as geleiras derretam, ou o sol se apague
    Espera mais um pouco para que o que nunca pode ser talvez tenha uma chance de existir
    Não vás agora ...espera que a noite não tarda
    E com ela vem a esperança que só surge de madrugada

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  5. de facto (:

    gostava muito de ter tido a oportunidade de ver paris coberta de neve, mas infelizmente ainda não chegou a minha vez.

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  6. não posso dizer se ele é ou não digno de metamorfose a mártir, porque não sei.

    o amor ao longo dos anos tem vindo a tornar-se um romântico agoniante e mecânico.

    o amor é (talvez) digno de metamorfose a mártir quando é um amor tóxico, obsessivo, violento, mortal.

    o amor mata o nosso ser lentamente, e ao fim de algum tempo perdemos a noção de quem somos, um vazio que encaixa em perfeição no outro.

    contrariamente ao amor, a paixão apenas existe no momento de loucura.


    "a inocência reflecte o mais aproximado a um ser humano."

    acho que é justamente o contrário, o ser humano perde a sua inocência desde o início e corrompe facilmente o seu corpo em troca de algo.

    ambiciona mais do que pode suportar e finge ser cego, para que possa ignorar o caos que a sua ganância causa.

    o mundo real estilhaça o vidro da inocência.

    e os que vivem isolados do mundo, são muitas vezes ignorantes.

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